Entrevista Paularte

Entrevista Paularte

“Aqui nós sabemos mexer na madeira, sabemos trabalhar a madeira, sabemos como ela “vive”!"

50 anos de história, de trabalho, de resiliência. Localizada na cidade de Braga, a Paularte celebra Bodas de Ouro, uma data marcante para a empresa. O fundador, João Paulo Martins, de 73 anos, relata à MN, sem segredos, os saberes de uma arte pela qual se apaixonou, e para a qual é preciso “uma vida” para aprender.

50 anos de Paularte. Como é que tudo começou, primeiro como profissional da madeira e depois como fundador da Paularte?

O nosso ramo começa a ter trabalho a partir de 1963-64. Quando saí da tropa, pensei na hipótese de montar uma oficina, mesmo por necessidade. Sempre trabalhei sozinho, aprendi com o meu pai. Depois o meu pai morreu, eu era entalhador, estava habituado a trabalhar por conta própria. Antes da vida militar, dos 14 aos 20 anos, à noite, tirei o curso de entalhador, aqui em Braga, na única escola que tinha o curso de entalhador, modelação e design e isso deu-me “know-how”, para vir a ter mais força que outros. Contratei um aprendiz, depois outro, na altura, não havia muitos operários, os que havia estavam empregados… e comecei, em 1968, tinha 23 anos. Foi sempre a andar, com sofrimento… se eu soubesse que era assim, não queria! [risos]. Mas também, quem não tiver espírito de sofrimento nunca mais é empresário.

A empresa sempre foi aqui onde estamos?

Não, montei onde nasci, uma loja por baixo, depois fui para outro sítio, depois a fiscalização industrial obrigou-me a sair porque fazia barulho, fui para outro espaço, aí tive que sair pelo mesmo motivo, até que vim para aqui. Encontrei este espaço e aluguei-o na altura por 10 contos [50€] por mês! Mas isto é bonito de se dizer, faz parte da história e da vida dos empresários de há 50 anos! Hoje em dia não, já vamos para parques industriais, mas naquela altura não havia nada. Onde é que havia uma lojinha? Era debaixo das casas. 

Quais são os principais pilares/valores pelos quais a Paularte se rege? 

Espírito de sacrifício, e o valor próprio pelas coisas, o gosto pelo trabalho. Eu tive sempre uma visão diferente, sempre olhei para os melhores, um pouco por todo o país, eu queria ser igual a eles, ia às feiras só para ver. “Bebi” um pouco deles todos, claro, ninguém nasce com saberes, é assim que nos realizamos.

Quais os maiores desafios com que a Paularte se depara?

A parte técnica e a parte económica. Tecnicamente, hoje o trabalho é mais difícil, a concorrência é muito grande e para combatê-la é preciso fazer coisas diferentes, quando digo diferentes digo trabalho manual, o saber antigo.

Tem clientes de há 50 anos, famílias que se mantiveram ligadas à Paularte?

Não. Talvez uma ou outra, amigos, mas fora isso não. O tipo de mobiliário que fazia há 30 anos, não digo que era único, mas marcava bem a diferença entre os outros. Os filhos dos meus clientes estão convencidos que ainda faço aquele tipo de móveis e isso afasta-os. Depois, quando vêm aqui, com os pais, eles ficam admirados. Talvez eu tenha sido dos primeiros a lançar mobiliário de design, a entrar em contacto com designers industriais. Nessa altura a recetividade foi muito boa; hoje a crise é terrível, já não há filhos de clientes. Os grandes grupos têm uma influência grande e também têm design, e as pessoas vão-se remediando.

Hoje em dia o cliente está informado? O cliente quando vem procurar uma peça sabe valorizá-la?

Sim, mas são muito poucos. Há portugueses com bom gosto, há, mas esses trabalham com os arquitetos e com os decoradores e aí estamos nós; a nossa sobrevivência é aí, e temos a preocupação de fazer bem.

Como descreve o momento atual da empresa, face à situação económica que vivemos em Portugal?

Vai vivendo, com dificuldades, com muito esforço; vai vivendo pelos designers, pelos arquitetos, mas nem eles têm muito trabalho, isto está mau, nós sabemos disso, mas também vejo que quando melhorar vai ser complicado, não vai haver gente para trabalhar.

Por não saberem também a arte de trabalhar a madeira?

Exatamente, esses então são muito poucos.

Quando contratou o último marceneiro?

Por acaso foi há 1 ano, tem cerca de 20 anos. Fez o curso, depois fez o estágio aqui de marceneiro. 

Quanto tempo leva a formar um marceneiro?

Uma vida. A aprendizagem é constante e hoje, com as novas tecnologias, com os novos materiais, ainda mais. 

Aqui a madeira ainda se trabalha de modo artesanal, é isso que vos distingue? 

Nós sabemos trabalhar a madeira! A marcenaria tradicional continua viva mas a maquinaria moderna tem um contributo importante na produção do mobiliário.

Há sempre espaço para a personalização na Paularte?

Sim, tudo! Aqui nós sabemos mexer na madeira, sabemos trabalhar a madeira, sabemos como ela “vive”! O mobiliário da Paularte tem um cunho próprio, conhecido! E isso eu via há 50 anos e não encontramos hoje. 50 anos deram bem para eu ter uma visão muito grande e sei hoje ver o que ganhei e o que perdi quando as fábricas fecharam. Nos últimos 10, 15 anos acabaram as referências do mobiliário em Portugal. 

Porquê?

Pela crise. Pela falta de salto e atualização. Caiu tudo.

De que modo marcam presença no mercado internacional? Através das feiras?

Eu fiz feiras aqui em Portugal e também em Valência. Agora não. É muito difícil, não tínhamos estrutura. Não foi grande resultado, também acompanhei muitas outras empresas que andaram por lá que já nem existem e outras que também deixaram de ir. Felicito as que andam ainda por cá! É difícil no nosso mercado arrancarmos para o mercado internacional e acima de tudo porque não temos identidade. 

Acredita que ainda estamos nesse impasse? 

Não temos nada em especial, é o que eu digo. Se bem que se fazem muitas coisas boas! Eu sou muito crítico em relação a isso. O que vejo dos móveis portugueses também vejo dos móveis espanhóis, vejo que há ali uma mistura, não há um cunho, como há 60 anos tínhamos cunho, até de arquitetos que ainda conseguiram desenhar.

Quais os principais mercados onde atuam?

Portugal, França, Inglaterra. Os ingleses têm um gosto próprio, embora já se consiga fazer algo com um bocadinho de modernidade, mas ainda é difícil. Estes clientes encontram-nos por intermédio de outros clientes, que estão instalados nesses países e que nos dão esse trabalho. Em França é um trabalho difícil, já viu o que é, nós termos o desenho de um apartamento todo destruído, e depois temos de levar tudo direitinho; Trabalhar para França é sobrevivência, não são móveis que se vendem para lá, são os apainelados. 

Amor é a palavra certa para caracterizar esta profissão?

Paixão seria a palavra que eu escolheria.

A Paularte completa neste ano de 2018, 50 anos. Bodas de Ouro para a empresa. Qual o segredo desta longevidade?

Apenas a necessidade de trabalhar, não há segredos.

50 anos de Paularte. O que ainda falta fazer?

Falta tanta coisa… consolidar a empresa, formar, tranquilizar… a minha bandeira foi sempre a inovação. Vejo-o pela referência que eu tenho da escola industrial, pelo curso que tirei e o que eu aprendi e ganhei lá, o que me obriga a falar também muito na formação, e quem não a tiver não se valoriza e também é preciso saber valorizar-se. E é uma das coisas importantes, que me falta fazer, valorizar muito mais os meus operários. Para que eles saiam felizes e que venham com vontade de fazer sempre melhor. 

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