AMY ALPER

 

“SIZA E SOUTO DE MOURA SÃO EXEMPLARES E SEMPRE UMA FONTE DE INSPIRAÇÃO E INFLUÊNCIA. O SEU TRABALHO ALTAMENTE EDITADO E ELEMENTAR É UM LEMBRETE DE QUE UMA IDEIA CLARA, EXECUTADA COM PERFEIÇÃO E SIMPLICIDADE, É MAIS RICA DO QUE O TRABALHO QUE É EXAGERADO”

Amy A. Alper, estabeleceu-se como arquiteta em 2005. Trabalhando com os elementos intemporais da arquitetura: espaço, luz, textura, ritmo, proporção e clareza de detalhes, Amy cria projetos para se adequar às oportunidades e restrições de cada local, em harmonia com as necessidades e desejos muito específicos de cada cliente.

Como é que começou a sua carreira enquanto arquiteta?
O meu primeiro trabalho após terminar o curso da escola de arquitetura (na UCLA) foi na Richard Meier and Partners, a trabalhar com o design do Getty Center. Fui a primeira mulher a trabalhar no gabinete de Los Angeles. Felizmente, após a minha contratação, seguiu-se a de várias mulheres. A abordagem da firma ao design, isto é, a utilização de princípios claros de organização, relações estudadas entre plano e secção, design com luz multifuncional e a transição bem conseguida e artística entre materiais, são fatores que permanecem completamenteintegrados no processo de design. Neste momento tornou-se um instinto.

Como nasce o Atelier de Arquitetura?
Depois de deixar Los Angeles por Sonoma County, trabalhei para inúmeras empresas. Estou especialmente orgulhosa da Carneros Inn, a oeste da cidade de Napa. A minha função era a de arquiteta líder de projeto, responsável por uma equipa transversal. O projeto foi vencedor do Prémio Nacional AIA em 2007. Não muito tempo depois, decidi montar a minha própria firma. Eu queria garantir uma relação direta e altamente interativa com os meus clientes para melhor representar os seus interesses, bem como para uma abordagem de design mais pessoal.

Qual a sua maior fonte de inspiração?
A paisagem natural expansiva de colinas, vinhas e vistas da floresta no Condado de Sonoma são uma fonte constante de inspiração. Em resposta, o design inicial do local procura responder ao drama da aproximação e procissão – conduzindo àquelas vistas. Uma forte ligação interior-exterior, completa por um ponto focal influencia o design mais do que a criação de um objeto precioso.

Qual o maior desafio que encontra diariamente enquanto arquiteta?
O custo atual da construção no Norte da Califórnia é bastante elevado, especialmente após os desastrosos incêndios florestais de outubro de 2017 e o maior desafio que eu enfrento. A procura está a pressionar os custos de material e as propostas feitas pelos sub-contratados. Os clientes pedem frequentemente uma casa com uma área quadrada que não é exequível face ao teto do orçamento que pedem. Isto também é verdade com projetos de orçamentos aparentemente generosos. Eu sugiro que o objetivo deveria ser projetar espaços que atendam às necessidades sem um tamanho de construção preconcebido em mente. O resultado é uma planta mais eficiente do edifício e da qual o cliente não estava à espera.

As tendências existem por todo o lado, até na arquitetura. Na sua opinião, quais as tendências para este ano de 2020?
Eu pratico a minha profissão numa área de clima moderado,não muito diferente de Portugal. As tendências que creio que continuarão incluem: um design sustentável e voltado para o ambiente – especialmente na área das energias, espaços de habitação abertos e flexíveis com uma forte ligação à natureza – tipicamente com grandes janelas e portas exteriores. Específico da Califórnia, a utilização de materiais resistentes ao fogo e um planeamento cuidadoso do local de trabalho com
a aplicação do conceito “espaço defensível” vis-à-vis ameaças naturais de incêndios e cheias. Espero um interesse por um vocabulário arquitetónico rústico rural entre os meus clientes em Sonoma, assim como uma tendência para projetos modernos.

Ainda no seguimento da pergunta anterior, o que é intemporal, dentro desta área?
Como sempre: espaço, luz, textura, ritmo, proporção e detalhes expressivos. Empenho-me para que cada projeto responda aos desejos únicos de cada cliente e às oportunidades únicas que cada propriedade oferece. Também algo intemporal é o serviço prestado aos clientes através da gestão de recursos, quer monetários e ambientais, quer pela excelência da prática profissional.

Há uma complementaridade em ser arquiteta e designer de interiores? Qual?
Desenho para atingir uma arquitetura verdadeiramente integrada, para que a arquitetura e arquitetura interior trabalhem em conjunto e potencializem o todo em termos de proporção e fluxo modulado de espaço. O design continua fluído até que ambos estejam completamente explorados. Enquanto eu defino os conceitos para cada espaço, colaboro com um designer de interiores como parte da equipa para adicionar outro ponto de vista e conjugar a mobília, tecidos e iluminação decorativa.

Conhece o mercado português? O que pensa sobre ele?
Vejo o mercado português com os mesmos olhos com que vejo o mercado europeu em geral, onde existe uma visão a longo prazo para alcançar uma construção de qualidade, ao contrário do mercado americano, onde os custos iniciais são muitas vezes os influenciadores de decisões.

Tem algum arquiteto português de quem goste?
Claro, Siza e Souto de Moura são exemplares e sempre uma fonte de influência. O seu trabalho é uma lembrança constante de que uma ideia clara, executada de forma simples e perfeita é mais rica do que trabalhos demasiado elaborados. Dito isto, na minha própria prática, os meus clientes procuram mais variedade de materiais e texturas, o que também me proporciona uma forma mais expressiva de diferenciar a hierarquia de espaços residenciais.

Que tipo de projetos trabalham mais? Residencial ou Hoteleiro? Em qual dos dois prefere trabalhar?
O meu foco é a arquitetura residencial e, no entanto, a influência do mercado hoteleiro da região dos vinhos é evidente com pedidos de clientes para que a casa de banho principal seja “como um spa” e que o quarto principal proporcione uma sensação de “retiro”. Foi após o meu trabalho no Carneros Inn – um hotel residencial – que me apercebi da minha preferência por espaços de habitação residenciais.

Enquanto profissional, sabemos que há uma preocupação com o meio ambiente. A sustentabilidade, está a crescer nesta área?
A Califórnia tem requisitos muito exigentes de construção e de consumo de energia. Estes requisitos a partir de janeiro 2020 vão-se tornar ainda mais apertados e em breve a política de Consumo Zero de Energia será uma norma na Califórnia.

Que distinção enquanto arquiteta e/ou designer de interiores guarda para sempre?
Tenho tido muita sorte ao ter recebido vários prémios locais e nacionais galardoados pelo Instituto Americano de Arquitetos (AIA), assim como por ter realizado projetos em inúmeras publicações e livros.

Perspetivas para o futuro?
Devido ao custo elevado de construção na Área da baía de São Francisco e à grande procura e necessidade de alojamentos a preços acessíveis, os clientes muitas vezes adicionam uma Unidade de Habitação Anexa à sua propriedade para que possa ser arrendada, compensando os custos do proprietário e ajudando a procura por unidades para arrendamento. Outra opção para benefício económico e ecológico é a partilha de casas entre famílias e amigos – “co-housing” -cada uma com espaço privado, mas com cozinha e espaço de convívio partilhados. Uma perspetiva constante para o passado, presente e future… nunca me canso de ajudar clientes a visualizar e a construir o lar no qual vão construir as memórias familiares.

Algum projeto novo a caminho?
Atualmente estou na fase final de dois novos projetos, ambos em locais afetados pelos incêndios de 2017. Um é moderno em espírito, mas utiliza materiais rústicos e formas tradicionais, o outro é ultramoderno com um nível de entretenimento e uma varanda a mais de 6.5m de altura sobre uma vista de colina a norte e a sul sobre o Vale de Sonoma.