Nelson Soares Moreira : Absentismo e Presentismo
No universo das empresas de mobiliário, o absentismo e o presentismo não são meros números — são sinais, avisos, sintomas de algo mais profundo. O absentismo, quando os colaboradores falham ou se ausentam por doença, cuidados familiares ou stress, retira recursos vitais à produção. O presentismo, por sua vez, quando o trabalhador está fisicamente presente mas desligado da tarefa, torna-se ainda mais traiçoeiro: o corpo está, mas a mente não, o empenho falha, a execução fragiliza-se. Estes fenómenos afetam diretamente a eficiência e a qualidade — KPI essenciais no setor que vive da combinação de saber-fazer artesanal e escala industrial. Quando a equipa desacelera ou se distrai, surgem erros, desperdícios, atrasos. Isto afeta o custo unitário, compromete prazos, mina a reputação da empresa e corrói a competitividade internacional. No sector do mobiliário português, onde a margem é por vezes estreita, o impacto pode traduzir-se em milhões de euros por ano, conforme estudos de 2022 apontam. Mas o crucial está em compreender que este não é apenas um problema laboral: é um problema económico e jurídico. A deterioração da produção, a queda progressiva de qualidade, a incapacidade de cumprimento de compromissos, surfam sobre o absentismo e o presentismo. Estas disfunções internas —comportamentais, psicológicas, relacionais — alimentam a crise. E a crise financeira visível (redução da facturação, atrasos de pagamento, aumento de custos) é apenas a consequência. A causa está na desconexão entre pessoas, processos e propósito. Quando a causa não é tratada, a consequência toma forma — e pode levar à necessidade de reestruturação empresarial ou mesmo à insolvência. No âmbito jurídico português, os mecanismos de recuperação e insolvência (PER, processos especiais de revitalização, processos de insolvência) surgem muitas vezes demasiado tarde. As empresas que procuram esses instrumentos são já empresas que não conseguiram controlar o absentismo e o presentismo, que permitiram a erosão silenciosa da performance. Neste sentido, o absentismo e o presentismo são indícios antecipados de risco — não apenas para a produção, mas para a própria viabilidade da empresa. Cabe ao gestor, ao quadro de direcção, à liderança das empresas de mobiliário perceber que gerir pessoas não é «apenas RH»: é gerir valor, compromisso, cultura.
Identificar presentismo, entender absentismos repetidos, fortalecer o sentido de pertença, promover formação comportamental: tudo isto é tão crucial quanto controlar custos, negociar fornecedores ou reavaliar mercados. A prevenção começa no comportamento, não apenas no balanço. Porque um líder que ignora os sinais silenciosos
está a apostar na crise.
Em conclusão: absentismo e presentismo não são fenómenos isolados ou neutros. No setor do mobiliário — onde cada peça, cada detalhe e cada prazo contam — eles são alertas de que algo essencial se perdeu: a interligação entre o indivíduo e o seu papel; entre a visão da empresa e as tarefas executadas; entre o projecto e a entrega. A saúde financeira da empresa começa na saúde comportamental das pessoas. E é aí que se joga, em verdade, a linha que separa quem vai prosperar e quem vai sucumbir.
