Nelson Soares Moreira : Quando a luz se apaga, o Essencial revela-se
A ausência de luz revela mais do que a sua presença. Numa sociedade onde a eletricidade é tida como garantida, o recente apagão que atravessou Portugal deixou muito mais do que ecrãs desligados e elevadores parados – deixou um silêncio que nos obriga a escutar. Escutar o que somos, o que temos, e o que verdadeiramente importa.
Numa primeira reação, o apagão foi interpretado como falha técnica, eventualmente humana. Mas foi, na sua essência, um acontecimento profundamente simbólico. Ao retirar-nos a eletricidade, privou-nos também da distração constante, da hiperconectividade, do consumo automático. Reduziu-nos ao essencial. Sem luz, sem internet, sem som externo, restou-nos o espaço. E é aí que o mobiliário, o design e a arquitetura interior revelam a sua natureza mais íntima: a de serem estruturas de apoio à nossa experiência de vida.
Quando os interruptores deixam de responder, percebemos que uma cadeira bem desenhada, uma mesa funcional, um ambiente equilibrado não são meros objetos. São continentes do nosso ser. Nesses momentos, o estilo minimalista, tantas vezes confundido com tendência ou estética, revela-se na sua plenitude como filosofia prática de vida: a valorização do essencial, a clareza da função, a elegância da simplicidade. No escuro, o excesso torna-se ruído. O que permanece é o que tem sentido.
O apagão expôs, também, a fragilidade dos nossos sistemas. Mas mais do que isso, revelou a fragilidade da nossa percepção. Vivemos rodeados de estímulos e, por isso mesmo, perdemos sensibilidade àquilo que é verdadeiramente importante. Os espaços que habitamos, o mobiliário que usamos, são muitas vezes adquiridos por impulso, por imitação, por competição. O apagão suspendeu essas forças. E no silêncio e na escuridão, o essencial voltou a brilhar – não com luz artificial, mas com significado.
Mas este acontecimento traz também uma questão mais subtil, que é a relação entre direito e espaço. A legislação urbanística, as normas de segurança, a proteção dos consumidores, a regulamentação da eficiência energética: tudo converge para um objetivo maior – criar ambientes seguros, sustentáveis e funcionais. E é aqui que o design cumpre uma função quase silenciosa mas profundamente jurídica: ao desenhar com propósito, ao evitar o desperdício, ao respeitar a ergonomia e a harmonia
dos espaços, cumpre-se, ainda que de forma implícita, um princípio jurídico maior – o da dignidade da pessoa humana.
Vivemos numa era em que a aquisição se sobrepôs à contemplação. As pessoas compram mais do que sentem. Decoram mais do que habitam. O apagão, nesse sentido, foi também um espelho. O que ficou na sala, quando tudo se apagou? O que sobrou do que foi escolhido apenas para agradar ao olhar alheio? O que fez sentido nesse momento em que tudo o resto deixou de funcionar?
O mobiliário que escolhemos é, também ele, um reflexo da nossa identidade. Tal como as leis que nos regem, também os objetos que usamos todos os dias revelam os nossos valores e prioridades. E da mesma forma que a boa legislação não se impõe, mas sustenta silenciosamente o funcionamento da sociedade, também o bom design não se exibe – apoia, serve e resiste. A função encontra-se com a beleza. A forma encontra-se com o propósito. E é nessa união que a liberdade habita.
