Manuel Lopes : Inteligência Artificial

Não será errado admitir que, alguns dos modelos de gestão que se aprendem numa sala de aula, ou se lêem num livro, podem vir a ter uma eficácia limitada no tempo, quando o contexto muda.
A forma como atualmente fazemos negócios está a mudar, com o comportamento dos consumidores a diferenciar-se do passado. O novo ecossistema das transações, é hoje fortemente influenciado pelo digital e pelos social media e por isso, o caminho até às vendas, está mais complexo e é mais exigente.
Neste tempo, marcado por avanços tecnológicos rápidos e sem precedentes, onde a inteligência artificial (IA) se vem afirmando como força transformadora em praticamente todos os sectores, é quase tentador acreditarmos que, a tecnologia e a IA, por si só, podem garantir o sucesso de um negócio e, consequentemente, a prosperidade de uma empresa. Ora, tal não é verdade, até porque, a tecnologia, os mercados, as expectativas das pessoas, a cultura organizacional, os processos, a concorrência, o contexto social e muitos outros fatores, evoluem constantemente e tudo muda muito rápido.
Mas, no meio desta corrida tecnológica, há uma evidência que me parece inalterada: nada substitui a estratégia e a elaboração de um plano de negócios cuidadoso. A definição de um documento estratégico, nunca foi tão indispensável nas empresas, numa altura em que estamos a passar de planificações plurianuais ou anuais, para planos semestrais e mensais, precisamente, pela ilusão de que, o futuro, pertence apenas a quem adota a tecnologia mais recente.
A tecnologia amplifica, não substitui; acelera, não orienta; potencia, mas não decide.
Daí que, o verdadeiro progresso, aquele que perdura, que transforma e que cria valor económico sustentável nas empresas, ainda continua a depender da estratégia, da visão e do planeamento rigoroso da atividade operacional. Sobre este propósito, e na minha modesta opinião, há três pilares que se revelam mais essenciais do que nunca: dados, pessoas e processos.

Primeiro pilar: Dados – são hoje a base da inteligência organizacional.
As ferramentas de IA, aprendem com os dados, mas é a gestão que decide com base neles. Os dados, são hoje um alicerce de competitividade
empresarial, por revelarem padrões, anteciparem tendências e por nos permitirem tomar decisões mais assertivas, através de escolhas mais informadas e ponderadas. A elaboração de um plano estratégico, começa, precisamente, com a recolha de dados e com o seu tratamento rigoroso, com o propósito de se transformarem em conhecimento útil. Diria que, dados sem estratégia, são apenas números que, por não terem interpretação, perdem significado.

Segundo Pilar: Pessoas – o centro de tudo e um elemento insubstituível.
As pessoas, continuam a ser o maior diferencial competitivo de qualquer organização. São as pessoas que interpretam acontecimentos inesperados, que desafiam pressupostos, que trazem criatividade e ética às decisões. São elas que definem prioridades e que compreendem os contextos sociais. São as pessoas que estabelecem os valores, que dão direção ao futuro e que, no limite, garantem que a tecnologia serve a organização, e não o contrário. Uma empresa que invista em pessoas, no seu bem-estar, na sua formação contínua e na sua capacidade de adaptação, está a construir uma vantagem competitiva que nenhuma tecnologia consegue replicar. A IA, pode analisar padrões, prever cenários e sugerir caminhos, mas não define valores nem assume responsabilidades quando existirem falhas.

Terceiro Pilar: Processos – são a ponte entre, a intenção e a execução. Se a estratégia define o destino, os processos determinam o caminho.
Repare-se que, dados e pessoas só criam valor, quando sustentados por processos claros, consistentes e flexíveis. Processos bem estruturados, permitem ampliar a tecnologia e a eficiência, sem comprometer a qualidade e a segurança. A IA, não corrige processos mal concebidos – apenas os executa mais depressa. Daí que, automatizar sem clarificar processos, é acelerar na direção errada.
Aqui chegados, importa reafirmar que, a inteligência artificial, é o elemento mais disruptivo do nosso tempo e a sua boa utilização, constitui uma oportunidade extraordinária para acelerar e consolidar o progresso das nossas empresas. Se os dados fornecem clareza, se as pessoas dão o propósito e se os processos garantem a direção, então, quando estes três pilares se articulam sob uma estratégia sólida, a tecnologia deixa de ser apenas uma tendência, para se tornar num fator agregador e multiplicador de valor acrescentado para as organizações.
Pessoalmente, estou convencido de que, nenhuma inovação, por si só, substituirá o pensamento estratégico e o planeamento rigoroso de uma qualquer empresa. É esta intencionalidade estratégica que distingue as empresa que avançam e lideram, das que seguem o conformismo.