Manuel Lopes : 20 Anos de Transformação no mobiliário de cozinha: Tecnologia, inovação e design na Europa e em Portugal
Nas últimas duas décadas, a cozinha, passou por uma mutação silenciosa, mas profunda. O que antes era um espaço funcional, tornou-se no centro social, diria até, emocional da casa, palco de convivências familiares, de afirmação estética e de experiências que conjugam os saberes e sabores de quem sabe cozinhar. Esta transformação, foi impulsionada por mudanças sociais, avanços industriais e tecnológicos, novos materiais e por uma nova visão do design e da ergonomia.
Para melhor clarificar este processo evolutivo, vou tentar sintetizá-lo em quatro eixos:
I – O mercado europeu: Entre 2005 e 2025, o setor europeu do mobiliário de cozinha consolidou-se, com fabricantes mais robustos
tecnologicamente e com forte presença multinacional. Só para termos uma grandeza de valor, as estimativas para produção de mobiliário
de cozinha na Europa convergem para um valor a rondar os 19 mil milhões de euros, com quotas de exportação significativas. Alemanha, o maior produtor europeu, Itália, Reino Unido, França, Polónia e Espanha, apresentam-se como os principais países fabricantes de cozinhas.
Neste período, verificou-se um crescimento mais robusto no segmento médio-alto e superior, enquanto se assistiu a uma ligeira retração nos segmentos de entrada. A cozinha, passa de espaço funcional, a “peça central” da casa, impulsionando a utilização de materiais nobres e de maior qualidade, incorporando soluções técnicas mais diferenciadas e à medida das necessidades do consumidor.
O boom pós-pandemia COVID-19, entre 2020-2022, reforçou o investimento na casa, com o consequente aumento da procura e com consumidores mais bem informados e exigentes.
II – Revolução Tecnológica: Na minha opinião, a transformação tecnológica, foi talvez o motor mais decisivo desta evolução. A integração CAD/CAM, a generalização de centros de maquinação CNC, as linhas automatizadas de corte, furação e assemblagem, os robots de manuseamento e as linhas automáticas de acabamento de superfícies, permitiram produções em série, com versatilidade e com qualidade constante. Na indústria 4.0 a fábrica passa a funcionar como um sistema digital integrado, desde o pedido do cliente até à máquina. Neste contexto, por exemplo, o ERP (Enterprise Resource Planning) que é um sistema de gestão empresarial e o MES (Manufactoring Execution System) que é o sistema de execução e controlo, são dois sistemas que nos dizem o que produzir e como produzir.
A sustentabilidade industrial, também não ficou esquecida: otimização de processos para redução de desperdícios; uso de linhas de acabamento (lacagem e envernizamento) com emissões reduzidas, focadas na tecnologia eco-friendly e revestimentos de baixo VOCs; certificações FSC e PEFC que passaram a ser requisitos de mercado.
Foi através desta revolução tecnológica, que a cozinha se tornou um produto industrial altamente sofisticado, onde a precisão e a eficiência, convivem com a criatividade.
III – Novos Materiais: Claro está que, a transformação tecnológica de que atrás falava, foi também transversal a toda a indústria de matérias-primas e subsidiárias que abastecem este sector. A evolução dos materiais, redefiniu a estética e a funcionalidade da cozinha.
Superfícies de alto desempenho, tais como materiais compactos, laminados de alta pressão, superfícies sólidas “soft-touch” resistentes a riscos e dedadas, painéis com menor teor de formaldeído e reciclados, são alguns exemplos de novos materiais. De igual modo, os esmaltes e os vernizes, evoluíram no sentido de maior durabilidade e resistência, com acabamentos mais variados e sofisticados, para melhor desempenho em ambientes exigentes como o da cozinha.
No que à funcionalidade e ergonomia diz respeito, podemos destacar a utilização de sistemas inteligentes “push-to-open”, como por exemplo ferragens elevatórias, corrediças automáticas, soluções de abertura de frentes sem puxador com amortecimento integrado, acessórios otimizados, eletrificação discreta com iluminação LED integrada, tomadas retráteis, carregadores wireless embutidos e muito mais. Com tudo isto, a cozinha deixou de ser apenas mobiliário, para ser um sistema integrado de materiais, acabamentos, ergonomia e funcionalidade.
IV – Design: Neste quarto e último eixo que defini, podemos facilmente concluir que, o design de mobiliário de cozinha europeu, tornou-se numa referência mundial. A linguagem dominante combina minimalismo, integração e sofisticação discreta. Repare-se que, a fronteira entre espaços, esbateu-se. O mobiliário de cozinha aproximou-se do mobiliário de sala, numa integração «open space», com linhas limpas, proporções elegantes e acabamentos nobres. Cozinhas abertas, com frentes lisas, texturas mate, madeiras nobres, cores neutras e detalhes quase invisíveis, criam ambientes sofisticados, serenos e contemporâneos. Eventos como EuroCucina, interzum e FIMMA-Maderalia, tornaram-se verdadeiros laboratórios de tendência, onde se testam conceitos que depois se difundem por toda a Europa.
Em resumo, podemos dizer que, a Europa, acelerou a inovação, implantou tecnologia, ditou tendências e transformou o conceito de
cozinha à escala global. Mas, esta revolução, não ficou confinada aos grandes países industriais. Portugal, soube interpretar este processo
e transformou-o em oportunidade.
Na próxima edição desta revista, analisaremos como o país se posicionou e exploramos como o sector do mobiliário de cozinha português evoluiu, inovou
