José Ferraz : A ditadura das megaempresas
Ainda a propósito da matéria abordada no meu último artigo, para os empresários portugueses, cujas empresas são mais de 99% PME, o desafio da aplicabilidade da IA nas nossas organizações é mais um, entre tantos, que temos enfrentar no curto prazo. Consensual será que este desafio nos trará vantagens a médio prazo e que, entre outros, nos permitirá entender melhor e mais atempadamente o funcionamento das nossas organizações e torná-las mais eficientes, perceber os mercados e antecipar tendências, obter as informações atempadas que nos permitam reconhecer forças e fraquezas, bem como perceber mais rapidamente as ameaças e as oportunidades que estejam a emergir.
Machine Learning, Redes Neurais Artificiais, Sistemas Especialistas, visão Computacional ou PLN são ferramentas de IA, a que me referi, em detalhe, no último artigo, e
oportunidades a não perder. Está também para mim claro, que são as megaempresas aquelas que primeiro estão a utilizar muitas destas ferramentas, porquanto o seu poder económico assim o permite.
Estas organizações são, não raramente, uma incontornável ameaça às PME. Uma ameaça que silenciosamente, e sem que nos apercebamos, vai tomando para si as partes de leão dos diferentes mercados, deixando às PME e até a muitas das grandes empresas um espaço cada vez mais reduzido para exercerem o seu negócio.
As megaempresas, a que eu chamo negócios sem alma e sem coração, cujos proprietários muitas vezes não têm rosto visível, são mega organizações espalhadas pelos 5 continentes. Geram lucros megalómanos, que aplicam como e onde muito bem entendem, normalmente em paraísos fiscais, pagam impostos reduzidos, quando em comparação proporcional com as PME e consomem toda a mão de obra de qualidade, que o mercado gera. São, frequentemente, centros de grande improdutividade, quando comparadas com as mais pequenas, mas que fica disfarçada pela capacidade que possuem para manipular preços e mercados, seja através de monopólios ou
oligopólios, seja através de influência política e fiscal.
O poder e influência significativos destas grandes corporações sobre aspetos económicos, sociais e políticos da sociedade, podem ser traduzidos, rapidamente, através dos 5 aspetos que a seguir detalho:
Concentração de mercado: algumas grandes empresas dominam setores inteiros, como, por exemplo, o da tecnologia, o farmacêutico e o alimentar. Essa concentração leva, facilmente, a práticas monopolistas, dificultando a entrada de novos concorrentes e prejudicando muitas vezes o aparecimento de novos players e com eles uma concorrência mais justa e inovadora.
Poder económico: megaempresas possuem recursos financeiros enormes, o que lhes permite influenciar mercados globais, definir preços e moldar padrões de consumo.
Influência política: as grandes corporações fazem, frequentemente, lobby junto dos governos, por forma a moldar leis e regulamentações a seu favor. Podem, ainda, financiar campanhas políticas e utilizar o poder económico para obter vantagens regulatórias e fiscais.
Impacto social e ambiental: muitas vezes as atividades dessas empresas têm consequências ambientais e sociais significativas, poluição, exploração de recursos naturais e condições de trabalho precárias. Apesar disso, a sua influência pode dificultar a implementação de políticas mais rigorosas de proteção ambiental e de direitos sociais, nomeadamente, laborais.
Controle da informação: como exemplo, e sendo por todos nós conhecido, empresas de tecnologia, como a Google, o Facebook ou a Amazon, têm grande controle sobre a informação e os dados pessoais dos seus clientes e utilizadores, influenciando o comportamento e a opinião pública.
Perante estes factos, resta-nos continuar a nossa luta diária e esperar que a devida regulação e supervisão, que governos e organizações internacionais podem implementar, e o reforçar de regulamentos “anti-trust”, que previnam e proíbam as práticas monopolistas, os carteis, as fusões e aquisições e as práticas predatórias que prejudicam claramente a evolução correta e justa dos mercados e a competição entre empresas. Quem paga são os consumidores, ou seja, todos nós.
É, para mim, de igual forma, claro que os apoios às pequenas e médias empresas são cada vez mais necessários e justos, nomeadamente no tocante aos incentivos ao seu
desenvolvimento, a políticas de apoio e financiamento a atividades produtivas, de inovação em produto e processos, bem como de acesso a novos mercados. Medidas fiscais eficazes que permitam a aplicação dos lucros no reforço de capitais próprios são urgentes. A educação e consciencialização, através da informação à população consumidora, sobre o impacto negativo das grandes corporações. Um consumo consciente e sustentável dificilmente é compatível com aquelas empresas (note-se, a
título de exemplo, os recursos e a quantidade de lixo que gera uma encomenda à Amazon).
Enfim, estamos perante uma ameaça importante e complexa de lidar, quer para PME, quer para consumidores. A questão é complexa e requer uma abordagem multifacetada, envolvendo governos, sociedade civil e as próprias empresas.
Com este artigo, pretendo levantar alertas e consciencializar na medida do possível.
Resta-nos a cada um, passar a palavra, denunciar as más práticas e exigir, daqueles a quem pagamos para governarem os países, que ajam em conformidade.
