Casa de Sá um Diálogo entre Tempos

Casa de Sá um Diálogo entre Tempos

Casa de Sá um Diálogo entre Tempos

 

Implantada num lote vazio, a Casa de Sá retoma, volumetrica, material e compositivamente, o léxico da casa de Silva Rocha, ecoando os ritmos verticais e horizontais da fachada, os alinhamentos altimétricos, a geometria da cobertura e a composição pentapartida do alçado. Mantém, igualmente, o esquema de dois pisos, três vãos e janela central nas águas-furtadas, com pátio superior nas traseiras, uma configuração recorrente na rua e em vários pontos da cidade.
Num gesto contido, o novo volume recua ligeiramente no alinhamento da rua, como quem toma a palavra apenas depois de escutar. Estabelece-se, assim, um diálogo atento, onde a presença do novo prolonga o legado pré-existente sem o antagonizar. O nicho técnico sob um generoso óculo referencia a peculiar janela redonda que, na casa de Silva Rocha, se inscreve sobre a caixa de correio. Deliberadamente citando a casa de Silva Rocha, a materialidade da Casa de Sá estabelece-lhe paralelos diretos: a pedra calcária define o embasamento, enquanto os azulejos cerâmicos revestem o piso térreo, refletindo texturas e técnicas do edifício original.
Nas zonas superiores, a serralharia e a madeira reinterpretam, com maior subtileza, soluções construtivas anteriores, propondo uma leitura contemporânea do vocabulário histórico. Ainda que profundamente ancorada no modelo que a precede, a Casa de Sá afirma-se como uma proposta do seu tempo, procurando estabelecer correspondências de desenho e escala com a casa preexistente através de escolhas enraizadas na contemporaneidade.
Simultaneamente, pertence inequivocamente a Aveiro, evocando não só, de forma direta, a construção original mas também, de forma mais lata, as fachadas de madeira dos antigos armazéns de sal da cidade e, subtilmente, os ritmos gráficos e o cromatismo primitivos dos Palheiros da Ria.
A Casa de Sá compreende dois fogos distintos: um apartamento de rendimento no rés do chão, compacto, com um quarto, que se abre a um pátio traseiro por uma ampla superfície vidrada; e a habitação principal, que se desenrola entre o primeiro piso e as águas-furtadas. Na residência superior, uma claraboia central atravessa ambos os pisos, resolvendo a profundidade do lote. O seu eixo alinha-se com o vestíbulo, marcando o momento de chegada e iluminando ambas as circulações verticais com uma luz simultaneamente direta e difusa, quase cenográfica. Os espaços sociais orientam-se a sul, voltados para a rua, beneficiando da luz natural filtrada por um ripado em
madeira. A suíte recua, assim, para a fachada posterior, mais recolhida e silenciosa. No piso superior, dois quartos ocupam ambas as frentes (um tirando partido da janela que coroa a fachada principal, outro beneficiando de um pátio elevado nas traseiras), com zonas técnicas, circulações e um espaço de estudo entre eles. A proposta
apoia-se no uso de materiais locais e em soluções duráveis e de baixa manutenção. As pedras (granito, calcário e mármores) são extraíddas e transformadas em Portugal; a madeira de pinho é de produção nacional, assim como as ferragens, tintas e outros materiais e acabamentos.
Os revestimentos cerámicos, loiças sanitárias e torneiras são de fabrico local, reforçando o enraizamento da obra no lugar. Num território marcado por lotes vazios e pela presença anónima de edifícios de habitação indiferenciados, construídos na transição para o século XXI, entrecortados aqui e ali por sobrevivências das décadas que ladeiam a viragem para 1900, a Casa de Sá ergue-se afirmativamente, estabelecendo um diálogo atento com o lugar e com a sua história construída, reivindicando o seu direito à contemporaneidade e à sua autonomia formal.
Mais do que um edifício, a Casa de Sá propõe-se como ensaio sobre continuidade e pertença, deixando pistas para intervenções futuras: um gesto onde a memória e o presente se tocam e onde a arquitetura se oferece como ferramenta de escuta – ao passado, ao futuro, à rua, à cidade, à vida quotidiana e às suas circunstâncias.

 

 

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